SEMEC 2017 — Questão 34 · Interpretação de Texto
Interpretação de Texto
SEMEC · Português
(Fragmentos da obra) Vidas Secas de Graciliano Ramos
ome faz o homem procurar caminhos nunca andados. O que importa! Ele vai por aí sem saber para aonde. Sabe de onde veio, mas não sabe para aonde vai. O que importa? Ele vai por aí! Todos os caminhos o levam para lugar nenhum. Ele sabe que é macho. Cabra da peste e que vive no agreste, mas é um nordestino sem destino. Seu destino é enfrentar a seca terrível do sertão. Ele nasceu e passou pela roleta da vida. O que fez? – Montou animal brabo. Curou bicheira. Laçou garrotes rebeldes na caatinga sem se cegar. Bebeu água salobra engrossada por barro. Sua vida foi marcada por feridas doídas. Feridas invisíveis, mas que doíam. Vida sem graça vida sofrida. Apesar de tudo foi cabra macho. Dormiu no jirau sem saber para aonde ir. Ele vive em um mundo e só não entende porque é assim tão diferente. Ele se pergunta: que bicho eu sou, assim tão diferente? Ele não entende porque é assim tão diferente. Ele vive num mundo dos iguais, mas ele é diferente. Diferente? Por que tudo é diferente? Ele vê a seca, o mato que deveria ser verde tudo queimado. Os rios ao invés de água tem areia quente em seu leito. Suas nascentes mortas consumidas. Isso tudo é diferente. Por que eles haveriam de ser gente? A seca é que faz a vida assim. O silêncio também é uma sabedoria. Assim em seu silêncio Fabiano pensava. Se chover, tudo se proverá. Ali calado na sua mais profunda melancolia suspirou e devaneou. Sonhou com a chuva, os pastos verdes, os meninos correndo atrás das cabras. Sonhou com Sinha Vitória dormindo numa cama, uma cama melhor do que a do senhor Tomás da bolandeira. Choveu. O patrão, o todo poderoso, permitiu que a família de Fabiano tivesse a oportunidade de se instalar na fazenda em troca do trabalho. O sertão brotou. O gado engordou e multiplicou-se. A cada quatro um era seu. Seu na palavra, não na verdade. O fazendeiro era corrupto e ladrão. Pagava pouco por muito trabalho e ainda cobrava juros das despesas antecipadas. Nem os cálculos rudimentares de Sinha Vitória serviram de argumentos para convencer o patrão do erro na conta. O resultado foi o convite de procurar outro lugar para trabalhar. Para aonde eu vou se todos os lugares são iguais? – pensou Fabiano. Pensou se desculpou e ficou. ?Fabiano sempre havia obedecido. Tinha muque e substância, mas pensava pouco, desejava pouco e obedecia?. Perdeu no jogo. Foi preso. Discriminações, provocações, humilhações! Podia bater. Furar o homem do governo, mas governo é governo. Não brigou e com razão. Se fosse gente saberia falar e não teria o litígio, mas não falou. Respeitou e obedeceu a autoridade do amarelo. Não entendeu. Pra se ir embora é preciso pedir licença? A aridez não pedia licença. Entrava nas vidas com soberania. Mas o amarelo não teve compaixão. Prendeu e surrou. O poder continuou a diminuir o sertanejo. Desta vez foi o fiscal da prefeitura que exigiu pagamento de impostos. Impostos sobre o que? Sobre o produto de sua criação. – Quartos de carne de porco vendido de porta em porta lhe era cobrado impostos. Vencido pela autoridade do fiscal recua-se. Ah se soubesse falar! Convenceria o fiscal. Mas aquilo não era porco que vendia. Era carne. Melhor comê-la. A chuva trouxe esperança e alegria. Momento de uma interação social da família de Fabiano. A festa religiosa. De roupas novas. Assim se apresentaram. Não eram diferentes ou eram? Eram do agreste. Nada a ver com o estilo da vida das pessoas da cidade. Paletó, gravata, sapatos. Sapatos de salto altos nos pés de (…) não era nada indicado para quem se assemelhava a um animal. A apresentação neste estilo era tudo em nome da fé. Nem mesmo esta fé os impediam de se sentirem diferentes. Fabiano reconhece a extensão de suas dificuldades. O sertão seco, o patrão, o soldado e o agente da prefeitura. Tudo era contra ele. – O que sou não sei, sei o que não sou. Amor aqui está distante ou não existe. Diante da desgraça do homem sertanejo exilado do mundo social, alimentado por desejos e não sonho, ele deixa de ser. Não é possível sonhar onde a miséria não permite isso. Sinha Vitória sonha pequeno. Sonha em ter uma cama com correias de couro. Onde ele está e para aonde ele vai? – Vai por aí, pois todos os caminhos o levam a lugar nenhum.
A expressão " Todos os caminhos o levam para lugar nenhum " é devido, segundo o texto:
Alternativas
- A
Por ele ser macho.
- B
Porque por onde andar a sua vida estará sempre marcada pela miséria e exploração.
- C
Devido o sertão ser um espaço de diversos caminhos.
- D
Porque sua vida é marcada pelo sofrimento.
- E
Como ele é vaqueiro sertanejo não tem como ficar em um mesmo lugar por muito tempo.
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Fonte: SEMEC