IFSP 2019 — Questão 31 · Língua Portuguesa
Língua Portuguesa
IFSP · Português
“Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo. Moisés, que também contou a sua morte, não a pôs no intróito, mas no cabo: diferença radical entre este livro e o Pentateuco”.
(ASSIS, M. Memórias póstumas de Brás Cubas / Dom Casmurro. São Paulo: Editora Nova Cultural, 1995).
“O que julgamos inverossímil, segundo padrões da vida corrente, é, na verdade, incoerente, em face da estrutura do livro. Se nos capacitarmos disso — graças à análise literária — veremos que, embora o vínculo com a vida, o desejo de representar o real, seja a chave mestra da eficácia dum romance, a condição do seu pleno funcionamento, e portanto do funcionamento das personagens, depende dum critério estético de organização interna. Se esta funciona, aceitaremos inclusive o que é inverossímil em face das concepções correntes”.
(CANDIDO, A. A personagem do romance. In: CANDIDO, A. et al. A personagem de ficção. São Paulo: Perspectiva, 1987).
No excerto de abertura da obra de Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas, o narrador apresenta-se como um defunto autor. Considerando-se as observações de Antonio Candido, o procedimento literário de Machado:
Alternativas
- A
constitui-se em exemplo de situação inverossímil (a escrita depois da morte) admitida pelo leitor em função da lógica interna de organização da obra.
- B
constitui-se em quebra do vínculo de coerência da obra em relação à realidade externa, invalidando sua perspectiva crítica da sociedade brasileira.
- C
constitui-se em artifício narrativo inverossímil, validado apenas pela referência ao texto bíblico, que funciona como argumento de autoridade.
- D
constitui-se em escolha narrativa do autor que compromete a organização interna do romance por indicar a falta de desejo de representar a realidade.
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Fonte: IFSP