USP 2023 — Questão 1 · Sentidos do texto
Sentidos do texto
USP · Português
TEXTO PARA AS QUESTÕES 01 A 03
O jornalismo além da objetividade
Para a exígua parcela do improvável leitorado que ainda se interessa pelos estudos de jornalismo, acaba de sair um documento de leitura obrigatória: Além da objetividade — produzindo noticiário confiável nas redações atuais. [...]
Os dois autores são nomes consagrados na profissão. Leonard Downie Jr., professor da Escola Walter Cronkite, fez carreira no Washington Post, onde chegou a editor executivo. Andrew Heyward, docente na mesma faculdade, foi presidente da CBS News entre 1996 e 2005. Depois de consultarem uma respeitável bibliografia, a dupla entrevistou 76 pessoas que exercem cargos-chave na imprensa dos Estados Unidos e chegou a uma conclusão nada trivial: a palavra “objetividade”, tão cara à tradição dos jornais, anda fora de moda (outmoded). Repórteres e editores não têm mais o mesmo gosto em pronunciá-la. O termo já não nomeia o requisito central da credibilidade, pois “perdeu seu poder de definir os padrões mais altos da excelência jornalística”. [...]
Não se trata de negligenciar a realidade, de jeito nenhum, mas de olhar mais longe. Trata-se de examinar o pano de fundo e de decifrar as opiniões fundamentadas que entram em conflito. O texto jornalístico só é bom de verdade quando, além de narrar o acontecido, transpira pensamento. Só assim vai refletir o real e refletir sobre o real.
Para resumir, o que entrou em crise não é a tentativa de captar os dados objetivos da realidade, mas a empáfia com que muitos desfraldavam a bandeira da objetividade. Não dá para continuar assim. Já não tem serventia o repórter que descreve olimpicamente um episódio qualquer, ouve uma fonte favorável e outra contrária e, com isso, dá o trabalho por encerrado — o cidadão que se vire para encontrar a conclusão. A imprensa responsável não tem parte com a indiferença. Ou ela vibra junto com a audiência ou ficará isolada.
É nesse sentido que a boa redação jornalística procura desvelar as forças que se batem para fazer prevalecer uma interpretação ou outra, deixa claro seu método de trabalho, abre os olhos para a diversidade e compartilha com o público os valores e princípios que a orientam. Tudo se resume a uma questão de honestidade, em três frentes simultâneas: honestidade para relatar o que aconteceu, para esmiuçar o contexto e, em terceiro lugar, para não esconder seus próprios compromissos.
O ideal da precisão fria — que sempre foi uma forma de impostura positivista — caducou. Acima dele deve estar a relação franca com a audiência. O jornalismo digno de confiança respeita as expectativas de veracidade das suas fontes e de seus públicos, igualmente, do mesmo modo que respeita sua coerência interna. Assim, tece o diálogo entre sujeitos ativos num padrão civilizado e pacífico. Em outras palavras, o jornalismo se faz na intersubjetividade racional. [...]
Fonte: BUCCI, Eugênio. O jornalismo além da objetividade. Estadão (online), 09 de março de 2023 (adaptado).
De acordo com o texto, é correto afirmar que
Alternativas
- A
o ideal de objetividade, uma impostura positivista, foi responsável pela crise de credibilidade do jornalismo.
- B
a intersubjetividade deve superar a objetividade no jornalismo contemporâneo, conforme se faz tradicionalmente nos Estados Unidos.
- C
a credibilidade de um jornal se constrói pela clareza quanto aos seus compromissos e pela honestidade no relato e na contextualização.
- D
a boa redação jornalística deve privilegiar a conexão com os valores e os princípios da audiência em detrimento da factualidade.
- E
a objetividade não é mais central ao jornalismo, pois o leitor contemporâneo perdeu a capacidade de encontrar a conclusão por conta própria.
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Fonte: USP