Prefeitura de Matinhas 2024 — Questão 27 · Sentidos do texto
Sentidos do texto
Prefeitura de Matinhas · Português
Após a leitura da crônica abaixo, responda às questões de 27 a 31
Um pé de milho
Os americanos, através do radar, entraram em contato com a Lua, o que não deixa de ser emocionante. Mas o fato mais importante da semana aconteceu com o meu pé de milho.
Aconteceu que, no meu quintal, em um monte de terra trazida pelo jardineiro, nasceu alguma coisa que podia ser um pé de capim – mas descobri que era um pé de milho. Transplantei-o para o exíguo canteiro da casa. Secaram as pequenas folhas; pensei que fosse morrer. Mas ele reagiu. Quando estava do tamanho de um palmo, veio um amigo e declarou desdenhosamente que aquilo era capim. Quando estava com dois palmos, veio um outro amigo e afirmou que era cana.
Sou um ignorante, um pobre homem da cidade. Mas eu tinha razão. Ele cresceu, está com dois metros, lança suas folhas além do muro e é um esplêndido pé de milho. Já viu o leitor um pé de milho? Eu nunca tinha visto. Tinha visto centenas de milharais – mas é diferente. Um pé de milho sozinho, em um canteiro espremido, junto do portão, numa esquina de rua – não é um número numa lavoura, é um ser vivo e independente. Suas raízes roxas se agarram no chão e suas folhas longas e verdes nunca estão imóveis. Detesto comparações surrealistas – mas na lógica de seu crescimento, tal como vi numa noite de luar, o pé de milho parecia um cavalo empinado, de crinas ao vento – e em outra madrugada, parecia um galo cantando.
Anteontem aconteceu o que era inevitável, mas que nos encantou como se fosse inesperado: meu pé de milho pendoou. Há muitas flores lindas no mundo, e a flor de milho não será a mais linda. Mas aquele pendão firme, vertical, beijado pelo vento do mar, veio enriquecer nosso canteirinho vulgar com uma força e uma alegria que me fazem bem. É alguma coisa que se afirma com ímpeto e certeza. Meu pé de milho é um belo gesto da terra. Eu não sou mais um medíocre homem que vive atrás de uma chata máquina de escrever: sou um rico lavrador da rua Júlio de Castilhos.
(BRAGA, Rubem, Melhores crônicas - Seleção Carlos Ribeiro. São Paulo: Global, 2013)
Há crônicas realistas, objetivas e outras intimistas, subjetivas. A partir da delimitação do objeto de que trata a narrativa, é possível entender como o cronista vê a realidade do campo e da cidade. Nesse sentido, quanto à intencionalidade, é propósito comunicativo desta crônica:
Alternativas
- A
demonstrar o cansaço com relação à tarefa de escritor na cidade e o desejo de se dedicar às coisas do campo.
- B
minimizar a importância da ciência, como forma de exaltar a sabedoria do homem do campo.
- C
demonstrar as limitações de quem vive na cidade, e o desprezo com relação às coisas da terra.
- D
exaltar a imagem do lavrador, por se tratar de uma atividade árdua, mas também prazerosa.
- E
valorizar atividades ou gestos simples que são esquecidos devido ao ritmo de vida e do mecanicismo da cidade.
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Fonte: Prefeitura de Matinhas