Prefeitura de Camaçari 2024 — Questão 39 · Língua Portuguesa

Língua Portuguesa

Prefeitura de Camaçari · Português

Texto 42A2-III

Sou só um sertanejo, nessas altas ideias navego mal. Sou muito pobre coitado. Inveja minha pura é de uns conforme o senhor, com toda leitura e suma doutoração. Não é que eu esteja analfabeto. Soletrei, anos e meio, meante cartilha, memória e palmatória. Tive mestre, Mestre Lucas, no Curralinho, decorei gramática, as operações, regra de três, até geografia e estudo pátrio. Em folhas grandes de papel, com capricho tracei bonitos mapas. Ah, não é por falar: mas, desde o começo, me achavam sofismado de ladino. E que eu merecia de ir para cursar latim, em Aula Régia – que também diziam. Tempo saudoso! Inda hoje, apreceio um bom livro, despaçado. Na fazenda O Limãozinho, de um meu amigo Vito Soziano, se assina desse almanaque grosso, de logogrifos e charadas e outras divididas matérias, todo ano vem. Em tanto, ponho primazia é na leitura proveitosa, vida de santo, virtudes e exemplos – missionário esperto engambelando os índios, ou São Francisco de Assis, Santo Antônio, São Geraldo... Eu gosto muito de moral. Raciocinar, exortar os outros para o bom caminho, aconselhar a justo. Minha mulher, que o senhor sabe, zela por mim: muito reza. Ela é uma abençoável. Compadre meu Quelemém sempre diz que eu posso aquietar meu temer de consciência, que sendo bem-assistido, terríveis bons-espíritos me protegem. Ipe! Com gosto... Como é de são efeito, ajudo com meu querer acreditar. Mas nem sempre posso. O senhor saiba: eu toda a minha vida pensei por mim, forro, sou nascido diferente. Eu sou é eu mesmo. Diverjo de todo o mundo... quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa.

Guimarães Rosa. Grande sertão: veredas. In: João Guimarães Rosa / Ficção completa, vol. II.

Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p. 12-4.

Acerca do romance de que se extraiu o texto 42A2-III, no qual os acontecimentos são apresentados a partir da perspectiva do sertanejo Riobaldo, e da obra de Guimarães Rosa, assinale a opção correta.

Alternativas

  1. A

    A narrativa tem um tempo psicológico, pois é conduzida pelas lembranças de Riobaldo, que surgem desordenadas e misturam fatos antigos a fatos recentes, a fim de recriar a confusão mental do personagem na velhice.

  2. B

    Riobaldo narra suas memórias em tom de conversa informal com um interlocutor culto, que é interpelado pelo vocativo “Mestre Lucas” (quinto período) e tratado com respeito de “o/O senhor” (terceiro e vigésimo terceiro períodos), mas que não tem falas no texto.

  3. C

    Além das referências espaciais, o caráter regionalista do texto reside no resgate do autêntico linguajar sertanejo da tradição literária brasileira, a exemplo das variações de pronúncia, em “apreceio” (décimo primeiro período) ou “Diverjo” (vigésimo quinto período) e os desvios na formação e no emprego de palavras, como em “sofismado de ladino” (oitavo período), “despaçado” (décimo primeiro período) e “uma abençoável” (décimo sétimo período).

  4. D

    No trecho “Como é de são efeito, ajudo com meu querer acreditar. Mas nem sempre posso.” (vigésimo primeiro e vigésimo segundo períodos), Riobaldo acaba confessando ser ateu, a despeito das leituras das vidas de santos e das influências religiosas da esposa e do compadre Quelemém.

  5. E

    Riobaldo afirma ser homem de pouca cultura, um sertanejo ignorante ou um "pobre coitado” (segundo período), mas, ao longo do texto, percebe-se nessa afirmação mais um disfarce de modéstia ou um recurso retórico para impressionar o ouvinte que propriamente um fato.

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Fonte: Prefeitura de Camaçari

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