UFLA 2025 — Questão 17 · Análise das estruturas linguísticas do texto
Análise das estruturas linguísticas do texto
UFLA · Português
INSTRUÇÕES: Leia o Texto 3 para responder às questões 16 a 19
TEXTO 3
Perder as calças ou a casa
Cada brasileiro aposta agora no seu próprio número de loteria clicando numa máquina, sem limite de endividamento
Ruy Castro
1 Já transcrevi aqui este parágrafo uma vez, mas vou repetir. "A riqueza, para o brasileiro, não
2 é o acúmulo penoso de dinheiro poupado graças a muitas horas de trabalho. É algo com que se
3 sonha, que tem que vir do céu, e, no Brasil, a loteria é esse céu. É a esperança quotidiana de
4 milhões. A roda da fortuna gira todos os dias. Nos bares, nas ruas, a bordo e nos trens oferecem
5 se bilhetes de loteria. Os brasileiros os compram com o que sobra do seu salário. A determinada
6 hora vê-se grande multidão diante do local da extração; em todas as residências e casas
7 comerciais estão ligados os rádios; a expectativa do país inteiro se volta para um número. O que
8 lhe falta de cobiça, o brasileiro compensa com esse sonhar cotidiano de um enriquecimento
9 repentino."
10 É de Stefan Zweig em seu livro "Brasil, País do Futuro", de 1941. Se o escrevesse hoje, Zweig
11 teria de atualizá-lo. A expectativa por um número de loteria continua a assolar o país, mas não mais
12 coletivamente. Cada brasileiro agora aposta no seu próprio número. Já não precisa esperar pelos
13 sábados e quartas para comprar o bilhete e, dias depois, ficar ao pé do rádio para saber se ganhou.
14 Aposta numa máquina tipo caça-níqueis, quantas vezes quiser, um número atrás do outro, e, dali
15 a um segundo, na mesma máquina em que jogou, confere se ganhou ou perdeu.
16 Pode-se apostar tanto na sequência de números como de figuras. Não há limite de tempo
17 diante das máquinas, nem de endividamento — e ele perder as calças ou a casa, para as máquinas
18 tanto faz. Os novos templos das apostas vão de ambientes tentadores, com as luzes e penumbras
19 de um cassino, até botequins comuns, com ovo colorido e um São Jorge na parede, todos
20 equipados com as irresistíveis máquinas.
21 O jogo provoca dependência tão grave quanto a do álcool e das drogas. Para aplacar a
22 síndrome de abstinência dos dependentes, há hoje no país milhares de "terminais de bets", como
23 são chamados. Tudo legalizado. Zweig apostou no futuro e acertou na pinta.
Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ruycastro/2025/08/perder-as-calcas-ou-a-casa.shtml. (Adaptado). Acesso em: 25 ago. 2025.
Na produção do texto, o autor utiliza construções metafóricas como estratégia discursiva. Considerando os excertos a seguir, assinale a alternativa CORRETA:
Alternativas
- A
A expressão “perder as calças ou a casa” (linha 17) é utilizada para metaforizar a possibilidade de dano material extremo decorrente da compulsão pelo jogo, sugerindo consequências graves para o apostador, além do simples prejuízo financeiro.
- B
A expressão “roda da fortuna” (linha 4) é utilizada para demonstrar a previsibilidade das conquistas advindas dos jogos de azar, indicando que o êxito financeiro decorre da continuidade de tentativas.
- C
A expressão “novos templos das apostas” (linha 18) é utilizada para reforçar o caráter sagrado da sorte, uma vez que muitos apostadores consideram o êxito nos jogos como uma intervenção celestial.
- D
A expressão “acertou na pinta” (linha 23) é utilizada para destacar a precisão das análises de Stefan Zweig sobre os jogos digitais no Brasil, uma vez que esse autor considera que sonho não é vício.
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Fonte: UFLA