USP 2025 — Questão 31 · Interpretação de Texto
Interpretação de Texto
USP · Português
Texto para as questões 31 e 32
Em silêncio
Precisava de silêncio para pensar, ordenar sua vida e rumos. Juntou poucas coisas, navegou até uma ilha deserta. Mas a gritaria das aves marinhas fundia-se com o farfalhar do vento nas palmeiras, e quando ambos se calavam, batiam inevitáveis as ondas contra as pedras. Silêncio não havia. Tomou suas coisas, voltou ao continente, recolheu-se numa gruta em montanha distante. Embora isolado, logo se viu rodeado de ruídos, pequenos alguns, minúsculos outros, que o aparente silêncio circundante agigantava. Era o gotejar do excesso de umidade, o esvoejar dos morcegos ao anoitecer, o zumbir de um ou outro inseto, um gorjear lá fora, um escavar cá dentro, um rastejar, e o ronco majestoso dos trovões, o estalar dos relâmpagos. Novamente arrebanhou seus poucos pertences. E desceu a montanha, regressou à cidade. As chaves da sua casa tilintavam no bolso, não atendeu ao apelo. Tomou ônibus e metrô, caminhou até a praça mais central. Ali, onde tantos passavam e as buzinas dos carros e os apitos dos guardas e o gritar dos ambulantes e o chamado das sirenes se entrecruzavam, sentou-se. Assim como havia ignorado as chaves, ignorou os sons todos que lhe atingiam a cabeça, esqueceu os ouvidos. E, vagarosamente, começou a descida em seu silêncio interior.
Marina Colasanti. Hora de alimentar serpentes. Global, 2013
No conto, a busca do protagonista está relacionada à tentativa de
Alternativas
- A
demonstrar que o silêncio perfeito é uma construção imaginária e artificial.
- B
isolar-se do mundo externo para criar uma realidade paralela e inexorável.
- C
comprovar que a natureza é menos ruidosa do que o ambiente urbano.
- D
encontrar uma quietude absoluta que, paradoxalmente, revela-se inalcançável.
- E
estabelecer um contraponto entre a vida solitária e a vida social da cidade.
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Fonte: USP