UFLA 2026 — Questão 7 · Análise das estruturas linguísticas do texto

Análise das estruturas linguísticas do texto

UFLA · Português

Texto para as Questões de 05 a 10.


A RAÇA SUPERIOR


Walcyr Carrasco


  1. A espécie humana acredita ser a única inteligente. Puro engano. Há tempos
  2. imemoriais nós, os humanos, fomos derrotados por uma raça superior, muito mais
  3. esperta. Mais que derrotados, fomos domesticados. Pelos cachorros. De fato, sob
  4. qualquer índice de avaliação, a raça canina se mostra superior. Quem convive com um
  5. cão gosta de dizer que é "dono". Como acreditar, se tudo prova que o cachorro é dono do
  6. homem? Na questão da alimentação, por exemplo. Qualquer pessoa gasta dinheiro e
  7. tempo para comprar ração. Analisa os vários tipos e até experimenta uns pedacinhos para
  8. avaliar o sabor. Corre atrás de ossos para proporcionar tardes de degustação ao cachorro.
  9. Compra imitações de borracha. Indústrias pesquisam novas rações nutritivas. Gastam
  10. uma fábula em propaganda. Ou seja: sem levantar uma pata, o cachorro faz com que os
  11. seres humanos trabalhem torrando neurônios, tempo e dinheiro simplesmente para
  12. alimentá-los! Certa vez tive uma cachorrinha que só podia comer arroz com cenoura e
  13. carne moída. Estava sem empregada. Durante um mês levantava uma hora antes,
  14. preparava a comida e saía para trabalhar. Ao voltar, servia uma nova refeição e lavava o
  15. prato. Em troca, ela me lambia os dedos. Eu me sentia no cúmulo da felicidade só de
  16. receber essas lambidinhas! Seja dita a verdade: quem era dono de quem?
  17. E na questão amorosa? Quando gosta de alguém o cão abana o rabo. Pode ser um
  18. desconhecido. Gostou, abanou. Quando está a fim, deita-se de patas para cima e lança
  19. um olhar bem pidoncho. Até o coração mais duro não resiste a dar carinho, coçar as
  20. orelhas, fazer uns afagos. Eu, não. Nunca me deitei de barriga para ficar me oferecendo.
  21. Vontade não faltou, mas e a coragem? Nós, seres humanos, usamos artifícios. Gastamos
  22. dinheiro em perfumes, em cabeleireiros, em dermatologistas. Vamos a happy hours,
  23. jantares, festas, barzinhos da moda, entramos em chats da internet, só para achar quem
  24. nos coce as orelhas. Se alguém faz festa para todo mundo que conhece, rebolando como
  25. um cãozinho, vem o veredicto:
  26. — Ih! Está com carência afetiva.
  27. Toca a procurar terapeuta. Horas e horas dedicadas a analisar a pura vontade de
  28. buscar amor! Revistas dedicam quilômetros de papel a práticas de sedução. Como olhar
  29. de lado, como sorrir, como se oferecer sem dar na vista. Mais: como ter coragem de
  30. expressar os sentimentos. Cachorro, não. Abana o rabo e pronto. Muitas vezes, com
  31. ciúme, já tive vontade de morder alguém. Ao contrário, sorri simpaticamente enquanto o
  32. sangue fervia. Cães não possuem esse tipo de constrangimento. Atiram-se em cima do
  33. rival. Mordem a mão de quem acaricia. Até conseguirem seu quinhão de afeto. Mas
  34. também não guardam raiva. Depois de rosnarem um para o outro, dois cães saem
  35. pulando e brincando juntos. Que espécie sabe lidar melhor com as próprias emoções?
  36. A questão da pele também é importante. Criamos indústrias do vestuário porque
  37. não estamos satisfeitos com a própria pele, e inventamos estratagemas para cobri-la. Boa
  38. parte da humanidade se dedica a fabricar tecidos, a inventar e a vender roupas. Qualquer
  39. pessoa ambiciona se vestir bem. Fortunas são despendidas em novos guarda-roupas. A
  40. moda vira, e toca a gastar tudo outra vez. Cachorro, não. Nasce vestido. Imagine-se
  41. quanto delírio, quanta mão-de-obra seria evitada se o ser humano tivesse a mesma
  42. tranquilidade a respeito da própria aparência.
  43. Chegamos ao X da questão. Criamos filosofias, escrevemos livros. Há quem faça
  44. ioga, meditação. Tudo para aprender a aceitar o fardo da existência. O cão já nasce
  45. aceitando. A vida é e não é, deve pensar o cão, com a sabedoria de um mestre zen. É o
  46. que constato todo dia ao chegar em casa exausto do trabalho, de mau humor com o
  47. chefe, com a fatura do cartão de crédito prestes a me degolar, o cheque especial batendo
  48. as folhas em torno de minhas orelhas como uma ave de rapina.
  49. Sento na varanda e meu cachorro se aproxima. Sem nenhuma preocupação na
  50. vida. Deita-se aos meus pés e prepara-se para receber sua dose cotidiana de carinho. Eu
  51. me submeto. Raça superior é isso aí.


Disponível em: https://comissaodecultura.wordpress.com/wp-content/uploads/2011/06/walcyr-carrasco-pequenos-d elitos-e-outras-crc3b4nicas.pdf (Adaptado).

Considerando as construções sintático-semânticas, analise as alternativas e assinale a INCORRETA:

Alternativas

  1. A

    As frases interrogativas: “Como acreditar […]?” (linha 5) e “Que espécie sabe lidar melhor […]?” (linha 35) funcionam como interrogações retóricas que não esperam resposta objetiva por parte do leitor, mas estabelecem diálogo reflexivo e reforçam argumentativamente a tese de superioridade canina, conduzindo o leitor a conclusões por meio de questionamentos cuja resposta está implícita no próprio texto.

  2. B

    O uso da voz passiva nas construções “Fortunas são despendidas em novos guardasroupas” (linha 39) e “Mais que derrotados, fomos domesticados (linha 3), desloca o foco do agente para o paciente (fortunas/humanos), enfatizando a condição de submissão e reforçando ironicamente a inversão da relação de poder tradicional, já que humanos aparecem no papel tipicamente atribuído aos animais domesticados.

  3. C

    A alternância entre pessoas do discurso: “Certa vez, tive uma cachorrinha [...]” (linha 12) e “Criamos filosofia, escrevemos livros” (linha 43) articula estrategicamente experiência pessoal e reflexão universal, utilizando a anedota autobiográfica como exemplo concreto que fundamenta e valida a tese geral sobre a humanidade, criando movimento argumentativo do particular para o universal.

  4. D

    As frases nominais presentes no texto: “Cachorro, não.” (linha 40), “Puro engano.” (linha 1) constituem desvios gramaticais resultantes da ausência de verbos conjugados, comprometendo a clareza sintática e demonstrando imprecisão na construção frasal.

Consulte a resposta

Visitantes podem consultar seis questões. Com uma conta gratuita, consulte até 20 por dia; no plano pago, todas sem limite.

Fonte: UFLA

Mais questões de Português