UFLA 2026 — Questão 6 · Análise das estruturas linguísticas do texto
Análise das estruturas linguísticas do texto
UFLA · Português
Texto para as Questões de 05 a 10.
A RAÇA SUPERIOR
Walcyr Carrasco
- A espécie humana acredita ser a única inteligente. Puro engano. Há tempos
- imemoriais nós, os humanos, fomos derrotados por uma raça superior, muito mais
- esperta. Mais que derrotados, fomos domesticados. Pelos cachorros. De fato, sob
- qualquer índice de avaliação, a raça canina se mostra superior. Quem convive com um
- cão gosta de dizer que é "dono". Como acreditar, se tudo prova que o cachorro é dono do
- homem? Na questão da alimentação, por exemplo. Qualquer pessoa gasta dinheiro e
- tempo para comprar ração. Analisa os vários tipos e até experimenta uns pedacinhos para
- avaliar o sabor. Corre atrás de ossos para proporcionar tardes de degustação ao cachorro.
- Compra imitações de borracha. Indústrias pesquisam novas rações nutritivas. Gastam
- uma fábula em propaganda. Ou seja: sem levantar uma pata, o cachorro faz com que os
- seres humanos trabalhem torrando neurônios, tempo e dinheiro simplesmente para
- alimentá-los! Certa vez tive uma cachorrinha que só podia comer arroz com cenoura e
- carne moída. Estava sem empregada. Durante um mês levantava uma hora antes,
- preparava a comida e saía para trabalhar. Ao voltar, servia uma nova refeição e lavava o
- prato. Em troca, ela me lambia os dedos. Eu me sentia no cúmulo da felicidade só de
- receber essas lambidinhas! Seja dita a verdade: quem era dono de quem?
- E na questão amorosa? Quando gosta de alguém o cão abana o rabo. Pode ser um
- desconhecido. Gostou, abanou. Quando está a fim, deita-se de patas para cima e lança
- um olhar bem pidoncho. Até o coração mais duro não resiste a dar carinho, coçar as
- orelhas, fazer uns afagos. Eu, não. Nunca me deitei de barriga para ficar me oferecendo.
- Vontade não faltou, mas e a coragem? Nós, seres humanos, usamos artifícios. Gastamos
- dinheiro em perfumes, em cabeleireiros, em dermatologistas. Vamos a happy hours,
- jantares, festas, barzinhos da moda, entramos em chats da internet, só para achar quem
- nos coce as orelhas. Se alguém faz festa para todo mundo que conhece, rebolando como
- um cãozinho, vem o veredicto:
- — Ih! Está com carência afetiva.
- Toca a procurar terapeuta. Horas e horas dedicadas a analisar a pura vontade de
- buscar amor! Revistas dedicam quilômetros de papel a práticas de sedução. Como olhar
- de lado, como sorrir, como se oferecer sem dar na vista. Mais: como ter coragem de
- expressar os sentimentos. Cachorro, não. Abana o rabo e pronto. Muitas vezes, com
- ciúme, já tive vontade de morder alguém. Ao contrário, sorri simpaticamente enquanto o
- sangue fervia. Cães não possuem esse tipo de constrangimento. Atiram-se em cima do
- rival. Mordem a mão de quem acaricia. Até conseguirem seu quinhão de afeto. Mas
- também não guardam raiva. Depois de rosnarem um para o outro, dois cães saem
- pulando e brincando juntos. Que espécie sabe lidar melhor com as próprias emoções?
- A questão da pele também é importante. Criamos indústrias do vestuário porque
- não estamos satisfeitos com a própria pele, e inventamos estratagemas para cobri-la. Boa
- parte da humanidade se dedica a fabricar tecidos, a inventar e a vender roupas. Qualquer
- pessoa ambiciona se vestir bem. Fortunas são despendidas em novos guarda-roupas. A
- moda vira, e toca a gastar tudo outra vez. Cachorro, não. Nasce vestido. Imagine-se
- quanto delírio, quanta mão-de-obra seria evitada se o ser humano tivesse a mesma
- tranquilidade a respeito da própria aparência.
- Chegamos ao X da questão. Criamos filosofias, escrevemos livros. Há quem faça
- ioga, meditação. Tudo para aprender a aceitar o fardo da existência. O cão já nasce
- aceitando. A vida é e não é, deve pensar o cão, com a sabedoria de um mestre zen. É o
- que constato todo dia ao chegar em casa exausto do trabalho, de mau humor com o
- chefe, com a fatura do cartão de crédito prestes a me degolar, o cheque especial batendo
- as folhas em torno de minhas orelhas como uma ave de rapina.
- Sento na varanda e meu cachorro se aproxima. Sem nenhuma preocupação na
- vida. Deita-se aos meus pés e prepara-se para receber sua dose cotidiana de carinho. Eu
- me submeto. Raça superior é isso aí.
Disponível em: https://comissaodecultura.wordpress.com/wp-content/uploads/2011/06/walcyr-carrasco-pequenos-d elitos-e-outras-crc3b4nicas.pdf (Adaptado).
Leia os excertos e analise o uso da linguagem informal:
I - “Quando está a fim, deita-se de patas para cima e lança um olhar bem pidoncho.” (linhas 18 e 19)
II - “sem levantar uma pata, o cachorro faz com que os seres humanos trabalhem torrando neurônios, tempo e dinheiro simplesmente para alimentá-los!” (linhas 10 a 12)
III - “Eu me sentia no cúmulo da felicidade só de receber essas lambidinhas!” (linha 15 e 16)
IV - “Se alguém faz festa para todo mundo que conhece, rebolando como um cãozinho, vem o veredicto: — Ih! Está com carência afetiva.” (linhas 24 a 26)
V - “Chegamos ao X da questão.” (linha 43)
Considerando as marcas de oralidade e informalidade presentes nos excertos, assinale a alternativa CORRETA:
Alternativas
- A
O uso de expressões coloquiais como “pidoncho”, “torrando neurônios” e “lambidinhas”, além da interjeição (“Ih!”) e da expressão conclusiva “x da questão”, confere ao texto tom conversacional e próximo ao leitor, característico do gênero crônica, criando efeito de espontaneidade que reforça o caráter reflexivo-humorístico da narrativa.
- B
As expressões informais presentes no texto representam inadequação linguística que compromete a qualidade literária da crônica, uma vez que o uso de termos como “pidoncho” e “torrando neurônios” evidencia empobrecimento vocabular e ausência de domínio da norma culta da língua portuguesa.
- C
A linguagem coloquial utilizada pelo autor tem como objetivo ridicularizar o comportamento dos donos de cachorros, demonstrando desprezo pela relação entre humanos e animais através de vocabulário vulgar e expressões de baixo calão incompatíveis com textos publicados em veículos de comunicação.
- D
As marcas de oralidade identificadas nos excertos configuram desvios gramaticais involuntários do autor, que deveria ter empregado exclusivamente a norma padrão formal, substituindo “pidoncho” por “suplicante”, “torrando neurônios” por “utilizando raciocínio” e eliminando interjeições como “Ih!” para adequar o texto ao registro culto.
Consulte a resposta
Visitantes podem consultar seis questões. Com uma conta gratuita, consulte até 20 por dia; no plano pago, todas sem limite.
Fonte: UFLA