UFLA 2026 — Questão 3 · Estratégias argumentativas
Estratégias argumentativas
UFLA · Português
Texto para as Questões de 01 a 04.
A ESTABILIDADE
"Nenhum servidor público pode ser coagido a realizar um malfeito por medo de perder seu sustento"
Michel Yamagishi
- Nasci em Manaus, em 1971. A Zona Franca tinha apenas 14 anos de existência e
- começava a produzir seus efeitos benéficos na cidade. Mesmo sendo muito pobre, desde
- que me entendo por gente sempre quis ser cientista. Sonhava em estudar na Unicamp. O
- sonho tornou-se realidade em 1991. Como não tinha como pagar aluguel, consegui uma
- vaga na Moradia Estudantil da Unicamp, na casa H2. Fazia minhas compras em uma
- pequena mercearia. Ia e voltava a pé, com as sacolas contendo, basicamente, miojo,
- atum enlatado, leite, achocolatado e bolachas recheadas para o café da manhã. Vida
- simples. O dinheiro era literalmente contado para o transporte, a alimentação nos finais de
- semana (miojo com atum ou cachorro-quente) e os tíquetes do bandejão. Às vezes,
- sobravam alguns trocados, que eu gastava comprando livros nas extintas livrarias do
- centro de Campinas.
- Como cada centavo fazia diferença, eu sempre prestava muita atenção em onde e
- como gastava meus cruzeiros. Lembro-me de uma ocasião em que, ao passar os
- produtos pelo caixa do supermercado, acabei perdendo a paciência com a funcionária,
- pois, pela milésima vez (obviamente uma hipérbole), precisava reclamar do preço errado.
- Porém, o que realmente me tirou do sério foi que a diferença era sempre para mais, nunca
- para menos. Erros genuínos têm padrão aleatório: uns para mais; outros, para menos.
- Aquilo parecia intencional. Num rompante de raiva, perguntei: “Por que o preço sempre
- sai mais caro?”. A moça do caixa não me respondeu. Seus olhos, angustiados e tristes,
- encontraram os meus e, em silêncio, ela corrigiu o valor do produto.
- Na volta para casa, carregando minhas compras, não parava de pensar no absurdo
- daquela situação. Errar o preço para mais, consistentemente, era um tipo de roubo. Por
- que ela faria aquilo? Eu era tão pobre quanto ela. Certamente, aquele “roubo” não iria
- para o seu bolso, pois estava registrado, e uma rápida conferência contábil apontaria a
- falta, caso ela se apropriasse da quantia surrupiada. Para mim, aquilo simplesmente não
- fazia sentido. Minha raiva só aumentava a cada passo que dava. Já quase chegando à
- Moradia, lembrei-me do olhar que trocamos. Um frio percorreu-me a espinha! E se ela
- fosse obrigada a proceder assim? Não — pensei —, ninguém me forçaria a fazer aquilo.
- Se alguém tentasse, eu pediria demissão na hora. Não trabalharia em um local onde o
- padrão moral fosse tão baixo!
- Meus pensamentos já iam se dispersando quando me ocorreu outra dúvida, ainda
- mais incômoda: e se eu fosse casado e tivesse filhos? Será que a decisão seria tão fácil?
- Aquela moça deveria ter uns trinta anos. Provavelmente, era casada. Teria filhos? Não sei.
- Porém, se aquela fosse sua única fonte de renda, um pedido do patrão, por mais
- indecente que fosse, soaria como uma ordem irrecusável. É, a vida não é simples, não.
- Naquela altura, como estudante, minhas responsabilidades eram limitadas. Eu podia fazer
- escolhas radicais, e o único afetado seria eu mesmo. Talvez aquela funcionária tivesse
- que optar entre o certo e o errado, tendo como pano de fundo a sobrevivência dos
- próprios filhos. O que eu faria naquela situação?
- Gosto de fantasiar que optaria pelo certo. Ah, o autoengano! Sempre imaginamos
- ser melhores do que realmente somos. Foi refletindo sobre esse acontecimento, décadas
- depois, que compreendi uma das principais razões para a estabilidade dos servidores
- públicos de todas as esferas governamentais. Sei que, para muitos cidadãos, a
- estabilidade parece um privilégio injustificável. Entretanto, sem ela, multiplicam-se os
- incentivos para que servidores cedam a pressões políticas e econômicas. Nenhum
- servidor público pode ser coagido a realizar um malfeito por medo de perder seu sustento.
- Na eventualidade de um superior hierárquico (ou qualquer indivíduo) assediá-lo para que
- cometa um ato ilícito, ele pode simplesmente se recusar. Obviamente, não sejamos
- ingênuos: sofrerá outros tipos de retaliação, mas não perderá o emprego e, portanto, não
- exporá a família a privações. A estabilidade permite que o servidor público faça sempre o
- certo. Quiçá usassem mais esse “superpoder”! Aquela atendente do caixa poderia
- racionalizar seu desvio de conduta e até dormir em paz, mas nenhum servidor público
- com estabilidade terá aquele atenuante — não lhe restando alternativa senão encarar a
- própria pusilanimidade ou mau-caratismo.
Disponível em: https://jornal.unicamp.br/artigo/2025/12/01/a-estabilidade/.
À luz das estratégias argumentativas utilizadas para sustentar o posicionamento do autor em defesa da estabilidade, leia os excertos a seguir e avalie as análises apresentadas:
I – “Nasci em Manaus, em 1971. A Zona Franca tinha apenas 14 anos de existência e começava a produzir seus efeitos benéficos na cidade. Mesmo sendo muito pobre, desde que me entendo por gente sempre quis ser cientista. Sonhava em estudar na Unicamp. O sonho tornou-se realidade em 1991.” (linhas 1 a 4) ⇒ Argumento de autoridade: o narrador-autor, com base no prestígio associado ao fato de ter estudado na Unicamp e de ser cientista, busca legitimar o seu ponto de vista, fazendo de sua formação acadêmica o principal fundamento da tese sobre a estabilidade.
II – “Lembro-me de uma ocasião em que, ao passar os produtos pelo caixa do supermercado, acabei perdendo a paciência com a funcionária, pois, pela milésima vez (obviamente uma hipérbole), precisava reclamar do preço errado.” (linhas 13 a 15) ⇒ Argumento por exemplificação: o episódio relatado é um caso, que ilustra a situação de trabalhadores submetidos a ordens questionáveis, servindo de base para a reflexão sobre coação econômica e para a defesa da estabilidade como mecanismo de proteção da ética no serviço público.
III – “Meus pensamentos já iam se dispersando quando me ocorreu outra dúvida, ainda mais incômoda: e se eu fosse casado e tivesse filhos? Será que a decisão seria tão fácil?” (linhas 31 e 32) ⇒ Raciocínio hipotético/contrafactual: ao se imaginar em outra condição (casado, com filhos), o narrador complexifica seu juízo inicial e introduz um cenário hipotético que evidencia o peso das responsabilidades familiares nas decisões éticas.
IV – “Sei que, para muitos cidadãos, a estabilidade parece um privilégio injustificável. Entretanto, sem ela, multiplicam-se os incentivos para que servidores cedam a pressões políticas e econômicas.” (linhas 43 a 45) ⇒ Argumento de causa e consequência: o autor menciona uma objeção à estabilidade e, em seguida, relaciona a ausência desse direito ao aumento de pressões indevidas sobre o servidor, estabelecendo um nexo causal entre falta de estabilidade e vulnerabilidade ética.
V – “Na volta para casa, carregando minhas compras, não parava de pensar no absurdo daquela situação. Errar o preço para mais, consistentemente, era um tipo de roubo. Por que ela faria aquilo? Eu era tão pobre quanto ela.” (linhas 21 a 23) ⇒ Argumento por generalização: ao considerar que o erro constante “para mais” configura “um tipo de roubo” e lembrar que também era pobre, o narrador formula uma conclusão geral sobre a desonestidade da funcionária, estendendo aquele caso específico a um julgamento amplo sobre o comportamento de trabalhadores em situação semelhante.
Assinale a alternativa CORRETA:
Alternativas
- A
Apenas I, II e III estão corretas.
- B
Apenas I, II e IV estão corretas.
- C
Apenas II, III e IV estão corretas.
- D
Apenas III, IV e V estão corretas.
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Fonte: UFLA