ITA 2018 — Questão 29 · Interpretação de Texto
Interpretação de Texto
ITA 2018 · Português
As questões de 27 a 31 referem-se ao texto a seguir:
Texto 1
1 Achei que estava bem na foto. Magro, olhar vivo, rindo com os amigos na praia. Quase não havia cabelos
brancos entre os poucos que sobreviviam. Comparada ao homem de hoje, era a fotografia de um jovem.
Tinha 50 anos naquela época, entretanto, idade em que me considerava bem distante da juventude. Se me
for dado o privilégio de chegar aos 90 em pleno domínio da razão, é possível que uma imagem de agora me
cause impressão semelhante.
2 O envelhecimento é sombra que nos acompanha desde a concepção: o feto de seis meses é muito mais
velho do que o embrião de cinco dias. Lidar com a inexorabilidade desse processo exige uma habilidade na
qual nós somos inigualáveis: a adaptação. Não há animal capaz de criar soluções diante da adversidade
como nós, de sobreviver em nichos ecológicos que vão do calor tropical às geleiras do Ártico.
3 Da mesma forma que ensaiamos os primeiros passos por imitação, temos que aprender a ser adolescentes,
adultos e a ficar cada vez mais velhos. A adolescência é um fenômeno moderno. Nossos ancestrais
passavam da infância à vida adulta sem estágios intermediários. Nas comunidades agrárias o menino de sete
anos trabalhava na roça e as meninas cuidavam dos afazeres domésticos antes de chegar a essa idade.
4 A figura do adolescente que mora com os pais até os 30 anos, sem abrir mão do direito de reclamar da
comida à mesa e da camisa mal passada, surgiu nas sociedades industrializadas depois da Segunda Guerra
Mundial. Bem mais cedo, nossos avós tinham filhos para criar.
5 A exaltação da juventude como o período áureo da existência humana é um mito das sociedades ocidentais.
Confinar aos jovens a publicidade dos bens de consumo, exaltar a estética, os costumes e os padrões de
comportamento característicos dessa faixa etária tem o efeito perverso de insinuar que o declínio começa
assim que essa fase se aproxima do fim.
6 A ideia de envelhecer aflige mulheres e homens modernos, muito mais do que afligia nossos antepassados.
Sócrates tomou cicuta aos 70 anos, Cícero foi assassinado aos 63, Matusalém sabe-se lá quantos anos teve,
mas seus contemporâneos gregos, romanos ou judeus viviam em média 30 anos. No início do século 20, a
expectativa de vida ao nascer nos países da Europa mais desenvolvida não passava dos 40 anos.
7 A mortalidade infantil era altíssima; epidemias de peste negra, varíola, malária, febre amarela, gripe e
tuberculose dizimavam populações inteiras. Nossos ancestrais viveram num mundo devastado por guerras,
enfermidades infecciosas, escravidão, dores sem analgesia e a onipresença da mais temível das criaturas.
Que sentido haveria em pensar na velhice quando a probabilidade de morrer jovem era tão alta? Seria como
hoje preocupar-nos com a vida aos cem anos de idade, que pouquíssimos conhecerão.
8 Os que estão vivos agora têm boa chance de passar dos 80. Se assim for, é preciso sabedoria para aceitar
que nossos atributos se modificam com o passar dos anos. Que nenhuma cirurgia devolverá aos 60 o rosto
que tínhamos aos 18, mas que envelhecer não é sinônimo de decadência física para aqueles que se
movimentam, não fumam, comem com parcimônia, exercitam a cognição e continuam atentos às
transformações do mundo.
9 Considerar a vida um vale de lágrimas no qual submergimos de corpo e alma ao deixar a juventude é torná-la
experiência medíocre. Julgar, aos 80 anos, que os melhores foram aqueles dos 15 aos 25 é não levar em
conta que a memória é editora autoritária, capaz de suprimir por conta própria as experiências traumáticas e
relegar ao esquecimento inseguranças, medos, desilusões afetivas, riscos desnecessários e as burradas que
fizemos nessa época.
10 Nada mais ofensivo para o velho do que dizer que ele tem "cabeça de jovem". É considerá-lo mais
inadequado do que o rapaz de 20 anos que se comporta como criança de dez. Ainda que maldigamos o
envelhecimento, é ele que nos traz a aceitação das ambiguidades, das diferenças, do contraditório e abre
espaço para uma diversidade de experiências com as quais nem sonhávamos anteriormente.
VARELLA, D. A arte de envelhecer. Adaptado. Disponível em <http://www1.folha.uol.com.br/colunas/2016/01/1732457> Acesso em: mai. 2017.
Assinale a opção que NÃO constitui um dos aspectos acerca do envelhecimento apresentados no texto. Envelhecer
Alternativas
- Aapavora a homens e mulheres.
- Bdesfaz a ilusão de eterna juventude.
- Crequer tratamentos de rejuvenescimento.
- Ddescortina valores dantes ignorados.
- Etraz aceitação das diferenças.
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Fonte: ITA 2018